Inside DEI - Pedro Sousa

Nesta edição do Inside DEI ficaremos a saber um pouco mais sobre o Professor Pedro Sousa.

  • Conta-nos um pouco sobre ti e o teu percurso no Técnico.

A minha ligação ao Técnico começou em 1982, quando entrei como aluno de Engenharia Electrotécnica e de Computadores. Na altura, ainda não havia Engenharia Informática no IST. Licenciei-me em 1987 e, desde esse dia, nunca me afastei verdadeiramente daqui.

Ainda antes de acabar o curso, em 1985, estava a investigar no INESC, no Grupo de Sistemas Operativos do INESC e em 1988 tornei-me Assistente Estagiário no DEEC, a dar aulas práticas de Sistemas Digitais, Microprocessadores e, mais tarde, Sistemas Operativos. O mestrado, concluído em 1991, foi feito em paralelo com a participação no projecto COMANDOS, um grande contrato ESPRIT na área de sistemas de objectos persistentes e distribuídos. O doutoramento surgiu como continuação natural do trabalho desenvolvido. O pós-doutoramento foi um momento de viragem na carreira, pois estava-se a fundar o DEI, e havia uma oportunidade, e um vazio, na área de Sistemas de Informação. Aceitei o desafio de assumir essa área. Fui também liderar o Grupo de Engenharia de Software do INESC, o que acelerou essa transição para a área dos Sistemas de Informação. Em 2004 tornei-me Professor Associado.

Fui responsável pelos Recursos Não-Docentes do DEI em 2005 e 2006, onde tenho muito boas memórias, apesar das minhas lutas ao nível do SIADAP com os órgãos centrais.

Pertenci à Comissão Executiva do DEI em 3 mandatos: de 2003 a 2005, de 2007 a 2008 e mais recentemente entre 2017 e 2019, na última presidência do Prof. Alves Marques, onde fui o responsável das finanças, onde muito do tempo era assegurar verbas para a contratação de assistentes.

Em termos das disciplinas, realço apenas as centrais e que ainda existem: a disciplina de Base de Dados, que peguei logo no início, e as disciplinas que hoje são a Arquitectura Empresarial e Engenharia e Tecnologia de Processos de Negócio. Penso que estas disciplinas são cada vez mais relevantes, em particular na era da IA, pois as suas componentes conceptuais e metodológicas são completamente agnósticas à tecnologia e cada vez mais relevantes. Hoje já deixei a responsabilidade dessas disciplinas para os mais novos. A última vez que fui responsável foi na disciplina de Base de Dados, quando esta teve 650 alunos....

Os mestrados são também uma parte importante da minha relação com o IST, mais marcante que o próprio ensino, pois conhecemos e trabalhamos mais com os alunos do que na docência. Ao fim de uma centena de orientações de mestrado, este semestre fiz uma pausa...

  • Em que consiste actualmente o teu trabalho na docência?

Atualmente dou aulas nas 3 disciplinas que referi, BD, AE, e ETPN, muito em função das necessidades de docência. Se possível, mesmo quando sou o responsável, escolho dar as aulas práticas pois há mais interação com os alunos.  

  • E na investigação?

Desde há muitos anos que a investigação tem sido centrada nos temas de Arquitetura Empresarial e Processos de Negócio. São temas que são tanto mais relevantes quanto mais fácil for fazer aplicações e automações.

Como é muito, mas muito mais fácil fazer de novo do que manter e evoluir o que existe, o código e as aplicações que suportam as organizações são cada vez maiores, e com isso a complexidade aumenta cada vez mais rapidamente.

Mas mesmo ao nível dos modelos existe o mesmo problema. Por exemplo, no domínio dos Processos, a notação de especificação de processos, o BPMN, encerra a estrutura de uma organização. Como as organizações estão sempre a mudar de estrutura, os processos estão sempre desatualizados.

Já no domínio da Arquitetura Empresarial, talvez o principal tópico de investigação seja a minimização do esforço de manter modelos atualizados em organizações que estão em permanente e acelerada alteração. A minha resposta está no conceito de "Enterprise Cartography", termo que propus e que culminou recentemente num livro, com o Prof. André Vasconcelos.

  • E na indústria? 

Estou na indústria desde 1996, e tem sido o alimento do ensino e da investigação. Logo em 1998, fui responsável por um projeto de reengenharia de modelos de dados, numa empresa que comprou um sistema com uma base de dados com milhares de tabelas e que depois precisou de ter um modelo conceptual dos dados. Esta foi a primeira investigação motivada pela indústria. Deu vários artigos, mas teve logo um impacto profundo na disciplina de Base de Dados. Ainda este ano (2026), levantei vários alertas na cadeira de Base de Dados sobre o relaxar de aspetos essenciais na modelação conceptual.

Na indústria tenho tido o cuidado de trabalhar fundamentalmente em Arquitetura Empresarial e Processos de Negócio. Isto permite trazer casos para as aulas, pôr os mestrandos a pensar nos assuntos e levar soluções para a indústria. Já lá vão quase uma centena de projetos de Arquitetura Empresarial em organizações nacionais e internacionais, públicas e privadas.

Há questões que parecem muito simples, mas são de facto complexas. Por exemplo, quase todas as organizações precisam de ter e manter uma lista das suas aplicações. Mas na ausência de critérios objetivos, esta lista pode ter 300, 500 ou 1500 aplicações dependendo de quem a fizer. A engenharia de software e os standards definem o que é um componente (a parte) mas não o todo. Em 2012 tive um projeto na CGD sobre a definição do que é uma aplicação, que deu um artigo. Em 2025 voltei a ter um projeto na CGD, e em mais duas grandes organizações financeiras, onde o tema voltou novamente à mesa.

É na indústria que percebo quão fundamental é a clarificação da visão funcional e estrutural em tudo o que modelamos e queremos perceber, e isto é transversal à forma de pensar, seja na modelação de Dados, de Processos ou das Organizações.

Profissionalmente, comecei no INESC mas em 2000 passei para a Link, onde me tenho mantido como o responsável pela área de Arquitetura Empresarial.  Passei pela administração da Link mas a gestão não é a minha praia.

  • Que projetos do teu percurso destacarias? Por exemplo, os mais inspiradores ou inovadores ou com maior impacto do teu percurso.

Sem dúvida que a criação de uma solução de Arquitetura e Cartografia Empresarial, na qual qualquer pessoa pode navegar no tempo em qualquer modelo. Todas as vistas têm uma barra do tempo onde se pode navegar no passado, presente e futuro expectável. Aplicado à cidade de Lisboa, seria um Google Maps em que se poderia andar para trás no tempo e ver como era a cidade no passado, mas também poderíamos avançar no tempo e ver no mapa todas as construções já aprovadas e com data de construção até à data em que nos posicionamos. Qualquer alteração seria composta por duas listas: a das coisas que vão nascer e a das coisas que vão desaparecer. Por exemplo, se avançássemos no tempo até dezembro de 2027, veríamos a cidade de hoje acrescida de tudo o que está previsto construir até essa data, e sem tudo o que está previsto desaparecer entretanto.

Agora, isto é aplicado aos modelos das organizações, alimentado pela lista de centenas de projetos que estas têm anualmente...

  • O que gostas mais no teu dia a dia no Técnico?

A minha presença física no Técnico resume-se quase exclusivamente às aulas e ao DEI às quartas-feiras, até porque não tenho gabinete fixo. As sessões com os colegas docentes e os mestrandos são quase exclusivamente remotas.

Há uma tensão contraditória nas aulas hoje, pois se por um lado é desmotivante quando muitos alunos não aparecem nas aulas, por outro, frequentemente os que aparecem fazem valer a pena. 

Mas o Técnico não fica na porta quando saio. Está presente em quase tudo o que faço profissionalmente e às vezes manifesta-se de forma inesperada: com alguma frequência, em reuniões ou projetos, alguém me reconhece como seu antigo professor. Na maioria das vezes não me lembro deles, mas eles lembram-se de mim.

  • Quem é o Pedro fora do Técnico?

Fora do Técnico, vivo em Sintra, no sopé da serra. Prefiro a natureza à cidade, e sempre que posso é para a natureza que fujo, seja a passear, seja a viajar. Uma boa refeição e uma boa conversa com argumentação à mistura são dois prazeres que não dispenso.

Sou madrugador por natureza, o que ajuda, porque estou quase sempre ocupado, normalmente com o trabalho. Não é uma queixa, é uma constatação: gosto do que faço, e isso tem um preço em tempo livre.

Tenho dois filhos e, como qualquer pai, é aí que estão algumas das melhores partes da vida fora do trabalho. No desporto, durante anos fui corredor amador. Três operações ao joelho depois, troquei a corrida pela bicicleta.

Se há uma coisa que me caracteriza fora do Técnico é que o Técnico raramente fica mesmo fora. A discussão de ideias é talvez o meu principal hobby e, em algum momento, quase sempre, o Técnico entra na conversa. Não sei bem se isso é um defeito ou uma sorte. Provavelmente as duas coisas.

(imagem: Pedro Sousa)

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