Inside DEI - Pedro Santos

Nesta edição do Inside DEI ficaremos a saber um pouco mais sobre o Professor Pedro Santos.
- Conta-nos um pouco sobre ti e o teu percurso no Técnico.
Desde que me conheço, sempre tive o sonho de ser cientista. Quando era miúdo, passava horas com um microscópio que me tinham oferecido; mais tarde, o primeiro dinheiro que juntei foi para comprar um conjunto de Química — algo que hoje já não se vende, imagino, por ser considerado demasiado perigoso para crianças. Também tinha muito interesse por eletrónica e eletricidade: na adolescência comprava componentes, desmontava circuitos impressos antigos e reutilizava as peças para criar novos circuitos, muitas vezes inspirados em revistas ou livros.
A primeira grande decisão sobre o meu futuro surgiu no final do 9.º ano: seguir Ciências Naturais ou Tecnologias. Tendo em conta o meu gosto por eletrónica, escolhi Tecnologias no 10.º e 11.º anos, na Escola Fonseca Benevides, em Alcântara. Como vivia em Cascais, isso implicava acordar cedo e apanhar o comboio todos os dias para Lisboa. Foi, no entanto, uma excelente experiência, numa escola muito procurada e com professores que me marcaram. Nessa altura, a minha ideia era seguir Engenharia Eletrotécnica.
Foi também no 10.º ano que recebi o meu primeiro computador, um ZX Spectrum 48K, que me abriu um novo mundo. Comprava revistas com código de jogos, copiava-o para poder jogar e foi assim que aprendi a programar em BASIC. Rapidamente passei de copiar código a fazer os meus próprios pequenos programas e jogos.
No verão entre o 10.º e o 11.º ano tive o meu primeiro contacto com o Técnico. O CIIST — Centro de Informática do IST, hoje DSI — tinha recebido novos computadores, os VAX-11/780, que utilizavam terminais monocromáticos em vez dos cartões perfurados do computador anterior. O CIIST ofereceu então um curso de BASIC, através da Câmara Municipal de Cascais. Eu e alguns amigos inscrevemo-nos e, durante algumas semanas de setembro, apanhávamos todos os dias um autocarro para a Alameda. Foi aí que conheci o Técnico pela primeira vez, e a escola atraiu-me imediatamente. A partir daí, decidi que era no Técnico que queria entrar.
Chegado o 12.º ano, veio a decisão sobre o curso. Não havia internet na altura, pelo que a informação era escassa: o melhor que se conseguia obter eram listas de disciplinas, muitas vezes apenas com os nomes. Eu estava bastante interessado em Informática, mas esse curso ainda não existia no Técnico. Nesse ano soube-se que o Técnico ia lançar uma nova licenciatura, Matemática Aplicada e Computação, e que estava a convocar alguns dos melhores alunos das escolas da região de Lisboa para uma apresentação. Vim à sessão e fiquei entusiasmado. O curso tinha várias disciplinas de programação e pensei que, sendo a Matemática a base da Ciência e da Engenharia, poderia depois aplicar esses conhecimentos nas áreas que viesse a achar mais interessantes. Coloquei LMAC como primeira opção — e entrei.
Gostei muito do curso. Éramos a turma piloto e todas as disciplinas eram novas, tanto para nós como para os professores. Nos primeiros anos sentia-me um aprendiz de feiticeiro, a quem iam sendo revelados os segredos do universo. A Matemática dava-me a linguagem necessária para compreender e modelar quase todos os fenómenos. Gostava também de Programação e de Probabilidades, e estive bastante indeciso — como tantas vezes ao longo da vida — sobre o caminho a seguir. Acabei por escolher o ramo de Análise Matemática. No quinto ano, fiz como opções Inteligência Artificial e Sistemas Periciais, o que despertou em mim um interesse por essa área que se mantém até hoje. Durante o curso fundei também as minhas duas primeiras empresas, iniciando o meu percurso como empreendedor.
Quando terminei a licenciatura, decidi ir para África durante um ano como voluntário de uma ONG. Nesse período refleti sobre o que gostaria de fazer a seguir e decidi seguir a carreira académica. Quando regressei, iniciei o Mestrado em Matemática Aplicada no Técnico e tornei-me assistente no Departamento de Matemática. Seguiram-se três anos de doutoramento na Alemanha e, em 1998, regressei ao Técnico como Professor Auxiliar.
No ano 2000, o Técnico encontrava-se numa situação económica e política complicada. Houve então uma mudança na direção da Escola, e o Presidente eleito, o Professor Matos Ferreira, desafiou-me a integrar o Conselho Diretivo, com o pelouro dos Assuntos Académicos. Aceitei o desafio, mas rapidamente percebi que havia muito a fazer e acabei por assumir também outros pelouros. Os anos de 2001 e 2002 foram extremamente exigentes e implicaram dedicação total — tive mesmo de deixar temporariamente de dar aulas e de fazer investigação —, mas foram também muito recompensadores. Foi nesse mandato que se recuperaram as finanças do Técnico, se consolidou o Taguspark com a vinda da LEGI e se lançaram bases importantes para o futuro, incluindo a decisão de criar o Fénix.
Depois desse período, continuei ainda parcialmente ligado à gestão, primeiro como Diretor-Adjunto para as Novas Tecnologias no Ensino e, mais tarde, como Vice-Presidente do Conselho Pedagógico, no mandato de 2009 a 2012. Nessa altura decidi afastar-me da gestão e dedicar-me mais ao ensino e à investigação. Em 2018 fiz a Agregação e, em 2021, tornei-me Professor Associado em double appointment no DM e no DEI.
- Em que consiste atualmente o teu trabalho na docência?
No Departamento de Matemática ensinei disciplinas como Álgebra Linear, Análise Matemática II, Análise Matemática III e Álgebras de Operadores. A partir de 2007 comecei a colaborar informalmente com o DEI, tendo ajudado a criar e a lecionar disciplinas como Design de Jogos e Metodologias de Jogos e Simulação. Em 2021 criei e comecei a lecionar a disciplina de Matemática para Aprendizagem Automática. Atualmente, no DEI, leciono Inteligência Artificial para Jogos e colaboro também em Design de Jogos, uma paixão antiga.
Para além das aulas, aquilo de que mais gosto é orientar estudantes em teses de mestrado e doutoramento. Tenho normalmente entre sete e dez orientações ativas por ano, o que consome bastante tempo, mas é também uma enorme fonte de satisfação. Isso é particularmente verdade quando os alunos se interessam pelos temas e desenvolvem trabalhos de grande qualidade. Em muitos casos, os estudantes acabaram por iniciar os seus percursos profissionais em empresas ligadas às áreas das teses que propus, ou mesmo diretamente relacionadas com os trabalhos que desenvolveram.
- E na investigação?
Como penso que se percebe pelo meu percurso, interesso-me por muitos assuntos e tenho um espírito multi e transdisciplinar. O que eu gosto mesmo é de aprender coisas novas.
Divido atualmente a minha investigação em duas grandes áreas. A primeira está ligada às minhas raízes como matemático aplicado e envolve temas de Análise Funcional e Real, com uma ênfase recente nos fundamentos da Aprendizagem Automática, nomeadamente na convergência de algoritmos.
A segunda grande área corresponde à minha paixão pelas aplicações. Ao longo dos anos desenvolvi trabalho em temas muito diversos, incluindo IA para Jogos, Inteligência Social, IA aplicada ao domínio jurídico, IA aplicada ao bem-estar mental e simulações multiagente de questões sociais, políticas e económicas. Um interesse paralelo, que me acompanha desde a infância, é o Design de Jogos. Além de criar jogos, realizei também investigação sobre os fundamentos do design de jogos.
Mais recentemente, comecei a olhar com maior atenção para questões sociais ligadas à economia e ao progresso tecnológico, em particular para os desafios colocados pela evolução acelerada da IA a que temos assistido nos últimos tempos.
- Que projetos do teu percurso destacarias? Por exemplo, os mais inspiradores ou inovadores ou com maior impacto do teu percurso.
Alguns dos projetos que mais me marcaram não foram apenas científicos ou pedagógicos, mas também institucionais. No âmbito da gestão do Técnico, destacaria a recuperação financeira da Escola, a consolidação do Taguspark e a criação do Fénix, bem como a resolução de vários problemas que se arrastavam há anos. Foram anos muito exigentes, mas também muito recompensadores, porque senti que estava a contribuir para criar melhores condições para estudantes, docentes e funcionários.
Também no âmbito das minhas funções como Vice-Presidente do Conselho Pedagógico, defini a versão dos QUCs que ainda hoje é utilizada, assim como os procedimentos que lhes estão associados. O Prémio IST de Excelência no Ensino, atribuído anualmente no Dia do IST, foi uma ideia minha, apoiada com entusiasmo pelos Presidentes do IST e do Conselho Pedagógico, os Professores António Cruz Serra e Eduardo Pereira. Contribuí também ativamente para a elaboração inicial de vários regulamentos que, com a sua evolução natural, têm enquadrado a vida do IST nos últimos anos.
No plano científico-pedagógico, destacaria os três livros que escrevi com colegas e que ajudaram a formar gerações de estudantes: um a nível internacional e dois em língua portuguesa, sobre Design e Desenvolvimento de Jogos e sobre Álgebras de Operadores. Em 2007, juntamente com os Professores Rui Prada e Carlos Martinho, criei a área de Jogos no MEIC, com as respetivas disciplinas e o Laboratório de Jogos. Desde então, mais de mil alunos passaram pelas disciplinas que criámos.
Em termos de investigação aplicada, salientaria o meu trabalho em jogos sérios, talvez aquele com maior impacto direto na sociedade. Destaco, por exemplo, o trabalho desenvolvido em componentes reutilizáveis de IA para jogos sérios num projeto europeu; os “Mathematical Trails”, pensados para apoiar o ensino da Matemática no ensino básico e secundário através de desafios ao ar livre com recurso ao telemóvel; e o design do jogo “Treme-Treme”, criado para preparar crianças sobre como agir em caso de terramoto, e que é utilizado como ferramenta pedagógica em escolas e até num museu.
Finalmente, um projeto fora do Técnico que gostaria de destacar foi a criação do Jogo de Cartas “Vem aí a Troika” em 2012, um jogo de sátira política. Este jogo foi um sucesso, e teve adaptações para Espanha e Grécia, e ainda uma variante publicada nos Estados Unidos.
- O que gostas mais no teu dia a dia no Técnico?
O meu campus de eleição é o Taguspark. Venho praticamente todos os dias para cá — ao ponto de ter escolhido viver muito perto do campus.
O que mais gosto no meu dia a dia é poder estar sempre a aprender, explorar ideias novas e contribuir, ainda que modestamente, para o desenvolvimento do país e do mundo. Gosto de estar e conversar com colegas de vários departamentos e com estudantes, num ambiente descontraído, por exemplo à hora de almoço. Sempre gostei muito de interagir com colegas e estudantes, e gosto especialmente de coorientar alunos juntamente com outros colegas, porque nesses processos acabamos todos por aprender mais.
Sempre tive muito orgulho e carinho pelo Técnico, mesmo nos momentos difíceis — que também os houve. Penso que os tempos que vivemos trazem grandes desafios, resultantes da mudança geopolítica e dos impactos que a IA generativa está já a ter, e continuará a ter, na sociedade em geral, e no ensino superior e na forma de fazer ciência em particular. Espero que o IST esteja à altura destes acontecimentos, como esteve noutras mudanças importantes ao longo da sua história.
- Quem é o Pedro fora do Técnico?
O Pedro fora do Técnico é muitas coisas. Continuo a ser um jovem sonhador que luta por um mundo melhor e mais justo. Sou um pai orgulhoso de duas filhas maravilhosas. Sou alguém que gosta de ler sobre história e economia, de tentar compreender o presente e de imaginar o futuro — ou os futuros possíveis.
Sou também alguém que já viveu e trabalhou na Europa, em África, na América do Norte e na Ásia, e que gosta de aprender a língua e a cultura dos locais onde está. Sou um empreendedor que ajudou a fundar várias empresas. Tento contribuir para a sociedade através da participação e do trabalho em ONG, bem como através da escrita e da partilha de ideias.
Gosto de estar com amigos, de jogar jogos de tabuleiro e de ver boas séries de televisão. Gosto de estar com aquela pessoa especial e de caminhar de mão dada.
(imagem: Pedro Santos)
