Inside DEI - Mário Silva

Nesta edição do Inside DEI ficaremos a saber um pouco mais sobre o Professor Mário Silva.

  • Conta-nos um pouco sobre ti e o teu percurso no Técnico.

Entrei em 1978 para Engenharia Electrotécnica. Sempre me deslumbrei com sistemas de reprodução e transmissão de som de alta fidelidade (ou, talvez, com os estados emocionais trazidos com eles). Aos 15 anos comecei a sentir pressão social de amigos para vir para o Técnico, ainda sem saber o que era, mas quando percebi ficaram escolhidos o curso e a escola. Quando estava a acabar o 4º ano vim fazer um estágio no INESC, e aí interessei-me a fundo por computadores e informática enquanto ferramentas de apoio à concepção de sistemas. Passei pelos sistemas computacionais, mas acabei a fazer o mestrado a desenhar chips, com uma equipa que concebeu na altura periféricos para os ZX Spectrum. Estive dois anos na indústria como administrador de um sistema informático de apoio ao desenvolvimento de uma central telefónica, mas ao fim de 2 anos regressei ao INESC para voltar ao software para gestão do processo de geração de hardware.  A vontade de aprofundar o conhecimento destes sistemas levou-me à docência no DEEC e a seguir ao doutoramento em Berkeley, que concluí nos 5 anos que foram os mais transformadores a todos os títulos: pessoal, familiar, profissional. Estive um ano a trabalhar numa start-up no Silicon Valley em meados nos anos 90 numa tecnologia então obscura chamada de "Agentes Inteligentes" aplicada ao fabrico de semicondutores.  Voltei ao Técnico brevemente e seguiram-se 15 anos fora, na FCUL, então noutra universidade. Reingressei no Técnico em 2011, agora nos Sistemas de Informação do DEI.

  • Em que consiste actualmente o teu trabalho na docência?

Encontro-me de licença sabática neste semestre na Universidade de Tsinghua, Pequim, e a seguir conto passar pelo campus de Shenzen a caminho da Universidade de Macau. Mantenho uma actividade pesada de gestão universitária, a presidência da Comissão de Ética do IST, com peso agravado por estar a realizá-la atrás da Grande Firewall.

Nos últimos anos tenho uma UC de Sistemas de Informação em Biomedicina oferecida a alunos do MEIC/MEBiom, uma UC de HACS, Tecnologia e Sociedade, que aprofunda as questões sócioprofissionais e éticas na engenharia (em especial nas especialidades das TIC), e coordenava o Mestrado em Engenharia e Ciência de Dados. 

  • E na investigação?

Neste momento estou focado em compreender melhor a temática da Ética na Engenharia, ao nível do ensino e aplicação em processos de desenvolvimento. No presente, os métodos de gestão do risco não são tema nuclear de ensino ou de prática comum em empresas de engenharia informática (como o são nas engenharias de infra-estruturas edificadas). Precisamos com urgência de introduzir na engenharia informática os métodos de engenharia estabelecidos noutras disciplinas, baseados na gestão multidimensional do risco, para colocarmos nos carris a transformação social profunda trazida pela digitalização.

  • E na indústria? 

No presente, e enquanto durar o meu período sabático, estou exclusivamente dedicado ao meu projecto individual de investigação e actividades de gestão universitária que me vejo obrigado a manter.

Nasci literalmente na indústria, ambos os meus avós tinham pequenas empresas e os meus pais também. No doutoramento fiz um minor em Gestão. Além de ter sido investigador principal em vários projectos de inovação em parceria com empresas, criei também ao longo dos anos empresas de sistemas e informação, e passei por licenças sem vencimento ou sem dedicação exclusiva para me dedicar a actividades fora da universidade, algumas das iniciativas com ex-alunos. 

  • Que projetos do teu percurso destacarias? Por exemplo, os mais inspiradores ou inovadores ou com maior impacto do teu percurso.

Pergunta muito difícil quando feita a qualquer engenheiro há mais de 40 anos. Destaco o mais ousado: a criação de um motor de busca sobre a web portuguesa desenvolvido e operado com um grupo de doutorandos e mestrandos ao longo de quase 10 anos. Chamava-se Tumba! (Temos Um Motor de Busca Alternativo). Perdemos a guerra que abrimos contra o Yahoo!, mas eles também foram destronados pela Google. David tinha comparativamente mais armas quando enfrentou Golias, mas o desaforo de os ter confrontado é uma glória presente nos jantares de camaradas onde o feito é ainda hoje celebrado. Quando hoje leio na imprensa que o projecto do LLM português é treinado com os dados do Arquivo da Web Portuguesa (um spin-off do Tumba!) não deixo de sentir um "blast from the past".

  • O que gostas mais no teu dia a dia no Técnico?

Se me perguntassem sobre o que gosto menos no Técnico, diria a tirania digital dos prazos do Fénix e ter de corrigir provas para dar notas. De resto, gosto de tudo. Sinto-me privilegiado pela liberdade de poder dedicar-me a trabalhar nos temas de investigação e ensino que escolhi. Aprecio o contacto com os alunos, em particular aqueles cujas teses supervisiono, que tem dado origem a amizade de décadas. Os alunos valorizam muito os feitos medidos em projectos de investigação e artigos que conseguimos publicar, mas eu fico feliz de cada vez que noto um salto quântico na sua capacidade de superação e como isso os tornou melhores humanos.

  • Quem é o Mário fora do Técnico?

Marido, pai, tutor do gato Mokas e, mais recentemente, avô. Leio avidamente a imprensa sobre a actualidade na UE, EUA e, desde há 2 anos, China. Literatura de ficção: já foi actividade intensa, antes da era dos média sociais, mas hoje só a pratico se tropecei nalguma utopia ou distopia a que fui levado por interesse profissional. Subscrevo duas plataformas de streaming multimédia e vejo filmes (de autor) sempre que o Técnico deixa. Proíbo-me de ver séries porque sou altamente vulnerável a tudo quanto me suba a dopamina e depois não consigo parar de ver. Estou em pausa agora, mas voltarei a uma guitarra eléctrica que os meus filhos me ofereceram recentemente. Não é preciso ser-se o Eddie Merckx para sentir prazer a andar de bicicleta, e na música, como na engenharia, é igual. Géneros musicais: tudo, mas o meu referencial está fixado, desde os 15 anos, no jazz de 1959 e o que lhe sucedeu. Gosto especialmente de assistir a espectáculos de ópera fora de Portugal, actividade que requer reserva de bilhete por vezes com meses de antecedência e exige ouvir repetidamente  gravações durante semanas para poder apreciar o lado emocional do espectáculo. Hoje em dia preparo-me também para qualquer espectáculo musical, nem que seja da banda do meu filho cujos discos ouvi repetidamente em profundidade. Colecciono discos em vinil e, para fazer render o investimento na licenciatura do Técnico, mantenho a minha cadeia de alta fidelidade analógica a funcionar impecavelmente com o som devidamente equalizado, uma tarefa hoje em dia muito facilitada com software de IA, muito útil quando a capacidade auditiva se deteriora. Um projecto de longo termo é reabilitar um palacete Arte Nova recentemente adquirido e, claro, manter-me activo até aos 90 para o conseguir terminar. 

(imagem: Mário Silva)

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