Inside DEI - Arlindo Oliveira

O Inside DEI está diferente.
Depois de dar a conhecer o staff do DEI, ficaremos agora a conhecer um pouco melhor os nossos professores.
Nesta edição, ficaremos a saber mais sobre o Professor Arlindo Oliveira.
- Conta-nos um pouco sobre ti e o teu percurso no Técnico.
Eu realmente não sabia muito bem onde queria estudar, sabia apenas que queria estudar computadores. Na altura os meus pais compraram-me um ZX81 (e depois um Spectrum) e aprendi a programar lá em casa, no Montijo, onde vivia desde que a minha família tinha regressado de África (onde nasci).
Tinha pouca informação na altura e tive a sorte de escolher o Técnico, onde acabei por perceber rapidamente que tinha feito a escolha certa. Os computadores estavam na sua infância e durante os 7 anos que estudei aqui (na altura o mestrado exigia dois anos adicionais) tive oportunidade de assistir a uma rápida evolução da tecnologia, desde os computadores que liam os cartões perfurados (que ainda usei no primeiro ano) até às primeiras estações de trabalho gráficas, que usavam sistemas com janelas e eram capazes de de mostrar imagens. Na altura fui convidado a integrar o INESC, quando estava no 3º ano, uma instituição à qual continuo fortemente ligado e que representa, para mim, uma extensão do IST.
Durante o mestrado foi incentivado por vários professores, em particular o Prof. Luís Vidigal, a prosseguir estudos nos Estados Unidos onde acabei por obter o doutoramento, na Universidade da Califórnia em Berkeley. Mas mesmo durante os mais de 5 anos que estive em Berkeley nunca me desliguei do Técnico, para onde sempre pensei voltar, apesar das oportunidades que surgiram quando acabei o doutoramento. Foi por isso que acabei por voltar para o IST, em 1994, onde segui uma carreira académica relativamente linear.
Em 1999 (ainda como professor associado) acabei por ser desafiado para a gestão académica e de investigação pelos professores Luís Borges de Almeida e Manuel de Medeiros Silva, o que acabou por influenciar grande parte do meu percurso académico, desde 2000 até hoje. Uma coisa levou a outra, tendo aceite a posição de vice-presidente do IST (com o pelouro das finanças, a convite do Prof. António Cruz Serra) em 2009 e assumido as funções de presidente do IST em 2012, funções que exerci até 2019. Presidir ao IST foi uma experiência fascinante e formativa, onde tive oportunidade de trabalhar (intensamente, é preciso dizê-lo) com muitas pessoas brilhantes, professores, funcionários e alunos, que partilhavam comigo o amor pela Escola que é comum a tantas pessoas que aqui trabalham. Curiosamente, as pessoas fora do IST nem sempre percebem este amor pela camisola (e pelo Técnico) que é comum a quase todos os que aqui trabalham e estudam.
- Em que consiste actualmente o teu trabalho na docência?
No IST ensinei muitas disciplinas, desde análise numérica a programação e algoritmos, passando por disciplinas de projecto de circuitos, arquitecturas de computadores e inteligência artificial. Aliás, a minha área de doutoramento foi numa área que agora é conhecida como inteligência artificial, embora na altura a designação mais comum em Português fosse a de aprendizagem automática. Fui, portanto, assistente e professor de três departamentos (Matemática, Eng. Electrotécnica e de Computadores e, desde 1998, Eng. Informática). Participei, aliás, na criação do DEI em 1998, a convite do Prof. José Alves Marques, tendo integrado o grupo dos primeiros docentes que criaram o DEI, num processo liderado pelos professores José Tribolet, José Alves Marques, João Lourenço Fernandes e João Pavão Martins. Nessa altura, foquei-me na criação e leccionação das disciplinas da área de aprendizagem automática, uma área que se veio a desenvolver muito desde essa altura, conhecendo uma rápida explosão com a revolução da aprendizagem profunda a partir de 2012. Nos últimos anos, com o crescimento do DEI e a entrada de novos docentes, tenho-me focado mais em disciplinas de programação, algoritmos e complexidade, uma área que também ajudei a criar no DEI e que estava pouco desenvolvida em Portugal na altura em que regressei a Portugal.
- E na investigação?
Na investigação nunca me afastei muito das duas áreas onde me foquei no doutoramento: aprendizagem automática e algoritmos. Porém, desenvolvi muitas aplicações em áreas que se vieram a autonomizar e a ganhar dimensão, nomeadamente a bioinformática, o projecto de circuitos, as arquitecturas de computadores e a inteligência artificial. Mais recentemente, voltei um pouco às origens, focando-me mais no desenvolvimento de novas tecnologias de aprendizagem automática (como referi, uma sub-área da inteligência artificial), a área que está por trás dos grandes desenvolvimentos da inteligência artificial nas últimas décadas.
A ideia que me trouxe para o Técnico (a de que os computadores podem aprender) é também aquela a que conto dedicar-me até ao fim da minha carreira de investigação. As aplicações que mais me interessam agora são o processamento de linguagem natural (as tecnologias que estão por trás do ChatGPT, Gemini e Claude, por exemplo) e a visão por computador (as tecnologias que permitem aos computadores perceberem e interpretarem o que vêem). Devo dizer, no entanto, que nunca pensei que os sistemas de inteligência artificial viessem a tornar-se tão poderosos em tão pouco tempo (enfim, trabalho nesta área há quase 40 anos, mas mesmo assim), ultrapassando de alguma forma as minhas previsões mais optimistas.
- Que projetos do teu percurso destacarias? Por exemplo, os mais inspiradores ou inovadores ou com maior impacto do teu percurso.
Quando regressei dos Estados Unidos criámos um pólo em Lisboa dos Laboratórios Europeus da Cadence, um projecto de grande impacto por ser a primeira vez que uma universidade portuguesa tinha sido contratada para fazer investigação por uma grande multinacional na área dos circuitos, neste caso sediada em Silicon Valley.
Uns anos mais tarde, criei, com a Prof. Ana Teresa Freitas, o grupo de Knowledge Discovery and Bioinformatics (KDBio), que veio a tornar-se uma referência em Portugal, tendo levado à criação de uma empresa que ainda hoje existe (a HeartGenetics) e estado na génece de outros grupos de investigação. Em paralelo, estive envolvido na criação do INESC-ID (tendo sido um dos seus primeiros directores e, mais tarde, presidente) uma instituição que tem crescido e se tem robustecido nestes 25 anos desde que foi criada.
Em 2009, participei na Assembleia Estatutária que elaborou os novos estatutos do IST, onde o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa desempenhou um papel fundamental, assim como os professores António Cruz Serra, Eduardo Pereira e Tiago Domingos. Na segunda década do século XXI, já na gestão do Técnico, o maior esforço foi colocado na internacionalização (com a preciosa participação dos professores José Santos Víctor e Luís Silveira), na criação de uma maior ligação ao tecido empresarial e numa maior ênfase na comunicação institucional. O trabalho desenvolvido durante essa década de forte abertura do Técnico à sociedade veio finalmente a concretizar-se (já no mandato do Prof. Rogério Colaço) com a construção do Técnico Innovation Center, que contou com o patrocínio de membros da Rede de Parceiros do Técnico, uma iniciativa que ainda continua saudável e que resultou da liderança do Prof. Luís Caldas de Oliveira, na altura como vice-presidente do Técnico.
Quando deixei a gestão do IST, em 2020, criei um novo grupo de investigação no INESC-ID, o Machine Learning and Knowledge Discovery Group, que tem ganho significativa dinâmica ao longo dos últimos anos e que neste momento tem actividade relevante na área, tendo sido já criada uma empresa com origem no trabalho desenvolvido (a Neuralshift).
- O que gostas mais no teu dia a dia no Técnico?
Continuo a vir para o Técnico todos os dias, como sempre fiz (excepto durante o doutoramento e as sabáticas) sempre com o mesmo gosto e entusiasmo. Continuo a gostar imenso de trabalhar com colegas e com estudantes (e especialmente a aprender com eles) e a contribuir para fazer avançar a tecnologia, essencialmente a mesma motivação que me trouxe para cá no já distante ano de 1980. O Técnico é agora uma instituição muito mais forte, mais internacional, mais valorizada e mais conhecida pela sociedade.
O orgulho de pertencer a esta instituição há mais de 45 anos é algo que ficará comigo até morrer. Nunca tive razões de queixa do IST, dos meus colegas e das centenas de alunos com quem trabalhei. Percebo que nem toda a gente possa ou queira dizer o mesmo, mas para mim o IST é de facto a instituição à volta da qual a minha vida tem girado desde que sou adulto, como referiam num vídeo que montaram numa homenagem que me fizeram há uns anos. O que mais gosto é, exactamente isso, o facto do Técnico ser a minha casa fora de casa, aquela que me acolheu em jovem e me deu condições para crescer e para fazer o que mais gosto de fazer, investigar e ensinar.
- Quem é o Arlindo fora do Técnico?
Do que disse acima, não há assim tanto para dizer, de facto, porque o Técnico ocupa grande parte do tempo. Ao longo da vida fiz alguns desportos com alguma seriedade e que continuo a praticar (xadrez e ténis, principalmente), gosto de montanhas (no Verão e no Inverno), de fazer vela e de correr um pouco (enfim, cada vez menos). Gosto também de ler e de escrever, hobbies que ligam muito bem com a vida académica. Gosto também de viajar para conhecer novos locais ou revisitar sítios onde já vivi, especialmente a Califórnia, a Costa Este dos Estados Unidos e o Japão: Mais recentemente, tive oportunidade de estabelecer uma colaboração com uma universidade em Macau, o que me tem permitido um contacto mais profundo com a civilização e cultura chinesas e fui convidado para integrar o Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos, onde tenho aprendido muito. De resto, como toda a gente, gosto de passar tempo com a família (três das nossas filhas passaram pelo IST) e, nos (poucos) tempos livres, de me dedicar à futurologia, algo que é cada vez mais difícil de fazer nos dias que correm.
(imagem: Arlindo Oliveira)
